Cadeia Ética da Reciclagem: conheça o primeiro guia do Protocolo

O Protocolo Ético para a Cadeia de Materiais Recicláveis é o primeiro guia prático da Cadeia Ética da Reciclagem, visão que o Instituto Recicleiros vem construindo desde 2017. O documento é um projeto da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável do Paraná (SEDEST-PR) e SIG Combibloc, implementado pela Earthworm Foundation, com apoio de Recicleiros, Yattó e so+ma. Ao todo, reúne 7 princípios e 23 critérios sobre direitos humanos, sustentabilidade ambiental e viabilidade econômica, orientando cooperativas de catadores, empresas e poder público na prática do dia a dia.

No Relatório Anual de Impacto 2025, o Instituto Recicleiros contará a trajetória completa desse trabalho: como a parceria amadureceu ano após ano até o conceito de cadeia ética ganhar reconhecimento oficial do governo do Paraná, que hoje o adota voluntariamente para orientar investimentos e projetos com cooperativas no Estado.

Baixe o Protocolo Ético para a Cadeia de Materiais Recicláveis

Há mais de 18 anos, o Instituto Recicleiros constrói sistemas municipais de coleta seletiva que unem reciclagem e inclusão social de catadores, hoje presentes em 14 municípios. A Cadeia Ética é a visão que orienta esse trabalho: relações mais justas entre catadores, cooperativas, empresas e poder público em toda a cadeia de valor dos resíduos.

Comunicação e marketing: impulsionando o propósito de Recicleiros

O departamento de comunicação e marketing do Instituto Recicleiros tem a missão de contar as histórias que emergem no cotidiano e amplificar as mensagens para promover um ecossistema da reciclagem ético e inclusivo. Diferente da publicidade tradicional, focada em vender um produto a um público consumidor, Recicleiros lida com uma rica e desafiadora pluralidade de públicos: empresas, gestores públicos, catadores e sociedade em geral.

Cada um desses públicos exige uma abordagem única, um cuidado específico com a linguagem e uma escuta ativa. Por isso, o trabalho é intrinsecamente colaborativo, uma troca constante com outras áreas da organização para garantir que a mensagem seja precisa, respeitosa e transformadora. O desafio diário, portanto, é navegar por diferentes perspectivas para, nos canais certos, conectar cada pessoa a sua importância nessa grande cadeia da reciclagem.

As principais ações da área em 2025

Eventos

Organizar encontros para unir pessoas, promover trocas de experiências e celebrar as conquistas integra a estratégia de comunicação de Recicleiros, e os eventos fazem exatamente isso. Ao longo do ano, Recicleiros organizou e coproduziu importantes encontros híbridos (presenciais e remotos) como o lançamento do Recicla+Pernambuco e da Academia do Catador, o evento de formalização do Termo de Compromisso de Logística Reversa com Pernambuco e o Seminário Empreender Juntos, da Academia do Catador. Além de promover debates qualificados e discutir temas essenciais para o desenvolvimento da cadeia ética da reciclagem, os eventos criaram conexões importantes entre todos os elos da cadeia, portanto, cumpriram seu papel primordial.

+1000 pessoas envolvidas presencialmente.
+3000 interações nos canais digitais.

Os eventos podem ser acompanhados no canal Recicleiros no YouTube: https://www.youtube.com/recicleiros

Campanha com Municípios Recicla+Pernambuco

As primeiras fases do Recicla+Pernambuco necessitavam de uma estratégia de comunicação certeira para apresentar o projeto a todos os municípios do estado e convidá-los a se inscreverem e participarem do processo de qualificação. A partir de campanhas simultâneas nos canais certos para o público-alvo, as informações se pulverizaram entre os gestores públicos municipais.

Por fim, o processo de qualificação da Academia Recicleiros do Gestor Público, ministrado pelo Núcleo de Políticas Públicas Recicleiros, contou com 89 municípios inscritos, e contemplou uma série de ações e atividades para desenvolver um sistema de coleta seletiva e reciclagem inclusiva. Ao longo dessa fase, 168 gestores participaram das quatro Oficinas Presenciais, 177 pessoas assinaram a lista de presença nas cinco Mentorias Técnicas On-line e 25 gestores e técnicos concluíram a Trilha de Conhecimento da plataforma on-line.

Entre as 34 candidaturas, foram classificados 18 municípios e mais um consórcio, que avançaram à próxima fase do Recicla+Pernambuco (Processo de Habilitação).

Imprensa: um novo capítulo para Recicleiros

Em 2025, o time de Marketing internalizou o relacionamento com a imprensa, abrindo novas possibilidades de comunicação.

Além do contato direto com os jornalistas e os veículos de comunicação, o setor colaborou na produção de releases em campanhas desenvolvidas pelos parceiros, como SIG e Recicla+Pernambuco.

Resultados alcançados:

  • Notícias publicadas: 355
  • Online: 325
  • Impresso: 30
  • Menções positivas: 76
  • Neutras: 278
  • Negativas: 0

Notícias em destaque:

Jornal Nacional
Reciclagem é tema de série de reportagens especiais no JN
https://globoplay.globo.com/v/13238254/

ECOA-UOL
Empresas conectam negócios à reciclagem e fortalecem economia circular
https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2025/10/29/empresas-conectam-negocios-a-reciclagem-e-fortalecem-economia-circular.htm

Jornal do Commercio
Pernambuco, junto ao Instituto Recicleiros, lança projeto para ampliar a coleta seletiva e reciclagem
https://jc.uol.com.br/pernambuco/2025/04/15/pernambuco-junto-ao-instituto-recicleiros-lanca-projeto-para-ampliar-a-coleta-seletiva-e-reciclagem.html

Ciclo Vivo
Academia do Catador une inclusão e capacitação de profissionais
https://ciclovivo.com.br/fique-ligado/cursos/academia-do-catador-une-inclusao-e-capacitacao-de-profissionais

Estadão
Projetos de reciclagem exigem persistência
https://www.estadao.com.br/economia/projetos-de-reciclagem-exigem-persistencia

 

Mudança de comportamento para reciclagem

O Instituto Recicleiros promove, nos territórios do Programa Recicleiros Cidades, a mudança de comportamento para reciclagem por meio de um conjunto estruturado de ações de mobilização social e educação ambiental que dão sustentação real à coleta seletiva.

Essas iniciativas incluem visitas domiciliares, diálogos comunitários, atividades educativas e momentos práticos de orientação. A abordagem é direta, acessível e territorializada, com explicações de fácil entendimento.

Uma engrenagem que conecta informação, educação, presença e mudança de comportamento.

Mas antes destas ações, é feito um amplo trabalho de pesquisa e conhecimento prévio dos territórios, como explica Mariana Almeida, Coordenadora de Mobilização do Instituto Recicleiros. “Partimos sempre do princípio de que cada município é único. Começamos com o mapeamento do contexto local e a compreensão do perfil das pessoas que vivem naquele território. Com conhecimento e estratégia, atuamos para que as ações não sejam simplesmente repassar informação, mas mobilizar e comunicar para a mudança de comportamento para a reciclagem.”

Inteligência de dados

Em 2025, o Instituto Recicleiros fortaleceu a gestão de dados das ações de mobilização social e educação ambiental para qualificar a tomada de decisão e ampliar o impacto nos territórios.

Os sistemas de registro foram reorganizados com critérios de padronização, governança e confiabilidade, garantindo indicadores mais consistentes e comparáveis. Os dados passaram a refletir o volume, a qualidade e os resultados das ações.

“Quando falamos em dados na mobilização social, estamos falando de memória, de aprendizado coletivo e de decisões mais alinhadas com a realidade de cada território. Ao longo do ano, construímos uma base de dados mais confiável e viva, que serve para registrar e monitorar processos, além de orientar escolhas, corrigir rotas e fortalecer o impacto das ações.”

Ana Clara Teles, Analista de Dados do Instituto Recicleiros.

Quem vive a reciclagem, mobiliza e leva conhecimento

As cooperativas são protagonistas das ações de mobilização e educação ambiental.

Em 2025, Recicleiros fortaleceu essa atuação ao estruturar os papéis de coordenação e assistência de mobilização dentro das cooperativas e realizar o curso de Formação de Educadores Socioambientais.

Com mais organização e preparo, cooperadas e cooperados ampliaram a capacidade de planejar, executar e acompanhar as ações nos territórios. Isso potencializa, na prática, o impacto da coleta seletiva nos municípios.

“Foi muito interessante aprender que para cada público existe um tipo de abordagem específica.São ensinamentos que nos inspiram para a prática da mobilização.”

Fernanda Oliveira, coordenadora de Mobilização da Recicla Maracaju.

“Mobilizar é o caminho para trazermos mais recicláveis para a cooperativa. Poder ampliar conhecimentos sobre estas ações é fundamental para nossa cooperativa.”

Jaciara Baltazar, coordenadora de Operação da Recicla Maracaju.

Dois projetos fortalecem a Educação Ambiental nas escolas

A educação ambiental nas escolas é estratégica para fortalecer a coleta seletiva nos municípios. Neste campo, Recicleiros atua em dois importantes projetos.

O Reciclando o Futuro oferece planos pedagógicos estruturados ao longo do ano letivo para o ensino fundamental I. Aborda, de forma lúdica, temas relacionados à reciclagem e à responsabilidade socioambiental.

Já a campanha A Reciclagem Não Tira Férias mobiliza as escolas para a coleta de livros, cadernos e materiais didáticos recicláveis ao final do ano letivo, que resultou na arrecadação de 75,4 toneladas em 2025.

“Esta campanha traz resultados positivos na captação de materiais recicláveis e na mobilização da comunidade escolar, ao envolver pais, responsáveis, alunos e professores. Trata-se de um movimento que estimula a reflexão sobre a destinação correta dos materiais que não serão utilizados no próximo ano letivo.”

Mariana Almeida, coordenadora de Mobilização do Instituto Recicleiros.

“O envolvimento dos alunos é sempre expressivo, com muitos estudantes levando resíduos recicláveis de casa para garantir a destinação correta na escola. Uma ação que vai além dos muros da escola.”

Carlos Alberto da Cruz Filho, Mobilizador da cooperativa Recicla Guaxupé.

Cadeia Ética da Reciclagem: o valor humano por trás do resíduo

No último sábado (15), os diretores fundadores do Instituto Recicleiros, Erich Burger e Rafael Henrique realizaram na COP30 o painel “Cadeia Ética da Reciclagem: o valor humano por trás do resíduo”, que teve como objetivo debater sobre a dimensão humana da reciclagem a partir da conexão entre cidades sustentáveis, justiça climática e economia circular.

O evento fez parte do Festival Coletivo, realizado pela Gael e Menos1Lixo, na Casa Brasil Belém 2025. Os presentes e o público online puderam acompanhar um debate aberto e provocador sobre o real cenário da reciclagem no Brasil e o cumprimento da responsabilidade compartilhada pelos resíduos gerados nas cidades brasileiras. Participaram também da discussão o presidente do Instituto Movimento Eu sou Catador (MESC), Tião Santos, e a presidente da Cooperativa de Trabalho dos Catadores de Materiais Recicláveis das Águas Lindas  (ARAL) e diretora da Recicla Pará, Sarah Reis.

No painel foi realizada uma constatação incômoda: 15 anos após a Política Nacional de Resíduos Sólidos, quase nada mudou para quem sustenta a reciclagem no Brasil: os catadores. O cenário ainda continua o mesmo, uma parcela significativa dos catadores e catadoras ainda trabalham em lixões ou nas ruas, sem garantias básicas e recebendo menos de meio salário mínimo por um trabalho essencial. Enquanto isso, grande parte das empresas cumpre metas ambientais com base em créditos obtidos às custas de mão de obra sub-remunerada.

Os participantes expuseram o paradoxo central: a reciclagem virou símbolo da economia circular, mas continua operando sobre uma base de trabalho informal, mal pago e invisível.

Alguns pontos críticos do debate:

1. A responsabilidade compartilhada virou desculpa compartilhada.

Prefeituras não estruturam coleta seletiva, empresas sub-remuneram os créditos, cidadãos seguem desinformados e cada elo aponta para o outro.

2. O mercado de créditos virou um mecanismo que “bate meta”, mas não paga dignidade.

Em diversos cenários, a cooperativa é responsável por processar e destinar o material, garantindo a geração dos créditos. No entanto, não recebe pelo serviço prestado, já que o valor de venda do material cobre, no máximo, apenas custos operacionais, como o frete para a destinação final.

3. Infraestrutura sem remuneração não resolve.

Prensa, galpão e caminhão ajudam, mas não fecham a conta quando ninguém paga pelo serviço ambiental prestado. O básico,  salário mínimo, INSS, férias, condições de segurança, simplesmente não chega.

4. O imaginário da reciclagem ainda é romântico.

Há a crença de que o material “paga” o processo. Mas, como provocaram: se o material realmente pagasse a operação, por que nenhuma empresa aceitaria um contrato público de limpeza recebendo apenas o material?

5. Falta coragem para tratar reciclagem como política pública real.

Gestores evitam instituir a taxa de resíduos (prevista em lei), não fiscalizam separação domiciliar e continuam operando com restrição orçamentária e pouco resultado.

6. Sem ética mínima, não existe cadeia circular possível.

Se um crédito de reciclagem é gerado em condições de trabalho indignas, ele é antiético por definição, ainda que cumpra a meta de logística reversa e apareça nos relatórios ESG.

7. Caminho para o futuro: ética como padrão do setor.

O painel propõe um novo marco: um selo de reciclagem ética, garantindo que o material reciclado carregue não só rastreabilidade, mas também respeito ao trabalhador.

8. Educação é necessária, mas não suficiente.

Conscientizar o cidadão é essencial, mas esperar gerações é inviável. O avanço real nos países que reciclam mais veio de fiscalização, regras claras e sanção — não só de campanhas.

Para que a economia circular se consolide de fato, é indispensável que se reconheça com dignidade os trabalhadores da reciclagem e seu papel central na cadeia de valor.

O painel completo pode ser assistido no canal do YouTube do Menos1Lixo.