Artigo internacional analisa por que UPMRs ainda não são economicamente autossustentáveis no Brasil
O primeiro artigo internacional desenvolvido a partir da base de dados do Programa Recicleiros Cidades acaba de ser publicado. Intitulado “Why are recyclable material recovery facilities not economically self-sustaining? A technical, financial and social analysis based on data from units in Brazil”, o estudo, realizado em parceria com o Núcleo de Estudo e Pesquisa em Resíduos Sólidos (NEPER) da Universidade de São Paulo (USP), utilizou dados produtivos das Unidades de Processamento de Materiais Recicláveis (UPMRs) incubadas por Recicleiros.
O artigo foi publicado na Waste Management & Research, revista científica da ISWA (International Solid Waste Association), reconhecida como um dos principais periódicos internacionais na área de resíduos sólidos. A publicação reforça a atuação do Vox Lab, laboratório de pesquisas do Instituto Recicleiros, que conta com patrocínio semente da SIG e vem ampliando a produção de dados e evidências qualificadas sobre a gestão de resíduos no Brasil.
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A pesquisa avaliou o desempenho operacional e financeiro de 12 UPMRs localizadas em quatro regiões brasileiras, todas incubadas pelo Programa Recicleiros Cidades. Para isso, foi desenvolvido um arcabouço analítico composto por 13 métricas, voltadas à análise de indicadores de produtividade, custos, receitas e condições de trabalho. Também foram conduzidas análises estatísticas para investigar as relações entre essas métricas e seus efeitos sobre os resultados das unidades.
Entre os fatores examinados estão custos de processamento, taxas de produtividade, índices de rejeito, custo por massa processada, despesas com mão de obra e rotatividade dos trabalhadores.
Os resultados indicam que a sustentabilidade das UPMRs não se resume à eficiência operacional. Mesmo quando dispõem de infraestrutura adequada e apresentam bom desempenho na comercialização de materiais, muitas unidades ainda enfrentam limitações estruturais para garantir estabilidade econômica.
“Na área de resíduos entendemos que a reciclagem é um serviço essencial para o bom funcionamento das nossas cidades, já que nos fornece benefícios ambientais e também é um importante gerador de trabalho e renda. Como contribuição do nosso trabalho temos a observação, através de dados, de que o sistema atual de operação das cooperativas de catadores de materiais recicláveis no Brasil não garante sustentabilidade econômica a essas organizações. Percebemos isto mesmo quando estas têm acesso a estrutura adequada para operar e apresentam bons resultados na comercialização de materiais. Desta forma foi demonstrado através de uma série de análises a necessidade de ampliar a quantidade de material reciclável que chega às unidades, mas também a necessidade de reconhecer financeiramente o trabalho dos catadores, de forma que as cooperativas ofereçam ambiente adequado para os trabalhadores e que estes obtenham remuneração justa e condizente com os benefícios que oferecem à sociedade”, diz Ana Teresa Rodrigues de Sousa, doutoranda em Ciências da Engenharia Ambiental e uma das autoras do estudo.
A partir dessas evidências, o artigo destaca a necessidade de modelos de financiamento mais estruturados, como taxas de serviço, parcerias público-privadas e mecanismos de responsabilidade estendida do produtor. Além disso, reforça a importância de políticas públicas que combinem eficiência técnica, equidade social e estabilidade de receitas.
O estudo também traz contribuições aplicáveis a outros países em desenvolvimento. As métricas e indicadores propostos podem servir como indicadores-chave de desempenho operacional para avaliar cooperativas de reciclagem em diferentes contextos.
“O Instituto Recicleiros vem pautando a cadeia ética da reciclagem em diferentes frentes e de forma pioneira no Brasil. Participar da produção de um artigo para uma publicação internacional de prestígio, enriquecendo nossos dados com a análise e visão acadêmica do Neper, é motivo de muito orgulho. O tema ainda tem um longo caminho a percorrer, mas estamos prontos para ser ponte e levá-lo cada vez mais longe”, comenta Luciana Ribeiro, Analista de Projetos do Instituto Recicleiros.
Autores do artigo: Igor Matheus Benites, Julia Fonseca Colombo Andrade, Ana Teresa Rodrigues de Sousa, Luciana Ribeiro, Monica Alves e Valdir Schalch.

